Vegetação

 

A cobertura vegetal da Reserva Ecológica do IBGE está constituída por dois grupos bem distintos de fitofisionomias ou tipos de vegetação: um relacionado com os terrenos bem drenados que ocupam as superfícies interfluviais da bacia hidrográfica onde ela está situada, aqui denominado vegetação de interflúvio; e outro associado com os terrenos úmidos ou com maior grau de fertilidade situados nas áreas de influência da rede de drenagem, aqui chamado vegetação associada com os cursos d'água.

 

Vegetação de interflúvio

Esse grupo compreende dois tipos de vegetação que se distinguem, sobretudo pela estrutura e pela fisionomia: um savânico e outro campestre, representados respectivamente pelo Cerrado e pelo Campo Sujo.

 

 

Cerrado

O Cerrado é uma vegetação semidecidual, típica de solos distróficos e bem drenados, que se caracteriza por ser constituída por um estrato arbóreo descontínuo, formado predominantemente por árvores baixas (a maioria na faixa de 3-8 metros de altura), tortuosas e de casca espessa e suberosa; e por um estrato arbustivo e outro herbáceo, de densidade variável e com significativa diversidade de espécies e de formas de vida.
Esse tipo de vegetação ocupa cerca de 75% da superfície da Reserva, sendo o seu principal tipo de cobertura vegetal. É também um dos que ocorre em maior variedade de solos, aparecendo em superfícies constituídas por Latossolos, Cambissolos e Solos Petroplínticos.

O estrato arbóreo do Cerrado é composto por cerca de oito dezenas de espécies, sendo Caryocar brasiliense, Qualea grandiflora, Hymenaea stigonocarpa, Sclerolobium paniculatum var. subvelutinum, Stryphnodendron adstringens, Styrax ferrugineus, Roupala montana, Ouratea hexasperma, Pouteria ramiflora, Dalbergia miscolobium, Machaerium opacum, Didymopanax macrocarpum, Eriotheca pubescens e Pterodon pubencens alguns de seus elementos mais abundantes.

Variações locais, relacionadas principalmente com a profundidade e a textura do solo, freqüentemente ocasionam diferenças significativas na densidade e na altura do estrato arbóreo do Cerrado, permitindo a sua divisão nas seguintes formas fisionômicas: Cerrado Denso, Cerrado Típico e Cerrado Ralo.

O Cerrado Denso diferencia-se das demais formas de Cerrado por possuir um estrato arbóreo denso, constituído majoritariamente por árvores de copa larga, com 5-12 metros de altura.

 


Sua distribuição está relacionada com um tipo de Latossolo Vermelho-Escuro argiloso e sua representatividade é restrita, fazendo-se representar por apenas duas comunidades na Reserva.

O estrato arbóreo do Cerrado Denso é formado por associações de espécies típicas de Cerrado com elementos próprios de formações florestais, sendo Emmotum nitens, Copaifera langsdorffii, Blepharocalyx suaveolens, Ocotea spixiana, Siphoneugena densiflora, Symplocos revoluta, Virola sebifera, Vochysia thyrsoidea, Caryocar brasiliense e Pterodon pubescens alguns de seus componentes de maior destaque.

Nas partes que estão há muito tempo sem sofrer incêndios, o estrato arbóreo dessas comunidades mostra-se mais denso e mais rico em espécies de florestas, indicando que quando protegidos os cerrados densos tendem a transformar-se em floresta do tipo Cerradão.
O Cerrado Típico corresponde à forma intermediária entre o Cerrado Denso e o Cerrado Ralo. Seu estrato arbóreo é formado somente por espécies típicas de Cerrado, sendo a maioria dos indivíduos de porte intermediário (com altura média na faixa de 4-5 metros) e de conformação mais tortuosa. Devido à menor densidade da cobertura arbórea, os seus estratos inferiores mostram-se mais densos e, geralmente, mais ricos em espécies.

Essa forma de Cerrado é a que melhor representa esse tipo de vegetação e a que ocupa maior área na Reserva, cobrindo em torno de 65% de sua superfície. Sua ocorrência está vinculada a Latossolos Vermelho-Amarelos, Latossolos Vermelho-Escuros e Solos Petroplínticos.

 

O Cerrado Ralo ou Campo Cerrado representa a forma mais rarefeita e mais baixa de Cerrado. Seu estrato arbóreo, além de ser de menor estatura (altura média em torno de 3 metros) e esparso, geralmente contém menos espécies do que o das outras formas desse tipo de vegetação. Em contrapartida, seus estratos inferiores geralmente são mais densos e apresentam maior abundância de indivíduos de espécies como Davilla elliptica, Eremanthus sphaerocephalaus, Calea lantanoides, Anacardium humilis, Myrcia linearifolia e Bulbostylis paradoxa. Além disso, esses estratos apresentam maior abundância de touceiras de espécies sobolíferas, como Parinari obtusifolia e Andira humilis.

Essas diferenças estruturais e florísticas têm sido atribuídas ao fato de tratar-se de uma forma de Cerrado que predomina em solos rasos ou de textura grosseira, como Cambissolos, Solos Petroplínticos e alguns tipos de Latossolo Vermelho-Amarelo.

 

Campo Sujo

O Campo Sujo é uma vegetação campestre constituída por uma camada de elementos herbáceos preponderantemente graminóides entremeada de arbustos e de indivíduos de porte reduzido de algumas espécies arbóreas de Cerrado.

Essa fitofisionomia, a exemplo do Cerrado Ralo, predomina em alguns Cambissolos e num Latossolo Vermelho-Amarelo que se situa nas baixas vertentes. Sua presença é mais marcante no noroeste da Reserva.

Em algumas faixas da confluência da vegetação de interflúvio com a que se relaciona com os cursos d'água, esse tipo de campo ocorre sobre microrrelevos do tipo murundu (ou murundum), constituindo o que comumente se chama Campo Sujo com Murundu. Em algumas partes dessas faixas, o lençol freático eleva-se quase todos os anos, na estação chuvosa, tornando o solo bastante úmido.

A composição florística do Campo Sujo, principalmente nas comunidades ou faixas mais afastadas da vegetação de interflúvio, possui grande similaridade com a dos estratos inferiores das formas de Cerrado acima descritas, sendo muitas as espécies comuns a essas duas fitofisionomias.

A família mais rica em espécies no Campo Sujo é Poaceae, que com os gêneros Axonopus, Paspalum, Panicum, Aristida, Tristachya, Ichnanthus e Echinolaena, entre outros, constitui a principal parte do estrato herbáceo. A família Asteraceae, com os gêneros Vernonia, Baccharis, Aspilia, Calea, Eremanthus, Achyrocline, Lesssingianthus e outros, é a que mais rivaliza com Poaceae em número de espécies e em abundância de indivíduos. Em seguida vem Fabaceae, com Mimosa, Chamaecrista, Eriosema, Bauhinia etc.

A diversidade de formas de vida é ampliada por uma considerável freqüência de geófitas das famílias Amaryllidaceae e Alstroemeriaceae, de orquidáceas hemicriptofíticas e de palmáceas de caule subterrâneo.

Vegetação associada com os cursos d'água

Esse grupo engloba três tipos de vegetação distintos pela estrutura, pela fisionomia e em parte pela composição florística: um florestal, representada pela Mata de Galeria; um savânico, denominado Vereda; e outro campestre, chamado Campo Limpo Úmido.

Mata de Galeria

Mata de Galeria é o tipo florestal de vegetação dominado por meso e microfanerófitos que ocorre ao longo da rede de drenagem, ocupando, juntamente com outras fitofisionomias, as planícies e as bordas dos vales dos cursos d'água.

Fatores de ordem edáfica, relacionados principalmente com o grau de umidade e a fertilidade do solo, permitem a divisão dessa vegetação em dois tipos bem distintos: Mata de Galeria Paludosa e Mata de Galeria Seca.

A Mata de Galeria Paludosa também chamada Mata Alagada, Mata Brejosa, Mata Inundada, Mata de Galeria Inundável e Mata de Brejo ocorre nas superfícies permanentemente encharcadas dos vales dos córregos que ainda não apresentam um canal de escoamento bem definido. Geralmente está associada a Solos Orgânicos, ocorrendo também em Solos Aluviais, Gleissolos e Plintossolos. Ocupa áreas expressivas ao longo dos córregos Roncador e aquara e espaços menores nos demais cursos d'água. É perenifólia e caracteriza-se por apresentar elevada abundância de espécies típicas de terrenos paludosos, tais como Xylopia emarginata, Richeria grandis, Talauma ovata, Hedyosmum brasiliense e Clusia criuva, entre muitas outras. Em alguns locais, apresenta entre estas espécies a palmeira denominada buriti(Mauritia flexuosa), típica de Vereda.

 

 

A Mata de Galeria Seca ou Mata de Galeria não-Inundável, na terminologia adotada por Ribeiro & Walter (1998), ocorre nas superfícies bem drenadas das planícies e terraços dos vales dos córregos que já possuem um canal de escoamento bem definido. Está associada a Solos Aluviais, Solos Podzólicos e Latossolos. Ocupa áreas relativamente extensas ao longo dos córregos Monjolo e Taquara e de menores dimensões nos outros cursos d'água. Varia de perenifólia a semidecidual, é mais rica que a Mata de Galeria Paludosa e compartilha diversas espécies com outras formações florestais da porção central do Brasil. Suas espécies arbóreas mais freqüentes são Hymenaea courbaril, Copaifera langsdorfii, Qualea dichotoma, Cheiloclinium cognatum, Tapura amazonica, Aspidosperma discolor, Piptocarpha macropoda, Sclerolobium paniculatum var. rubiginosum, Cryptocaria aschersoniana e Guarea guidonia, entre outras.

Essas matas ocupam menos de 10% da superfície da Reserva, mas são de grande importância, pois concentra cerca de 70% das espécies arbóreas, a quase totalidade das lianas e epífitas e mais da metade das aves e mamíferos nela registradas.

 

Vereda

Essa fitofisionomia está presente nas nascentes dos córregos Monjolo e Escondido e ao longo de alguns trechos do curso do Taquara e do Roncador, ocupando as partes mais baixas dos vales. É própria de terrenos permanentemente encharcados e ocorre de forma intercalada com matas de galeria paludosas e campos úmidos, em superfícies ocupadas por Gleissolos, Solos Orgânicos e Plintossolos.

A Vereda é também um tipo de vegetação peculiar, que chama muito a atenção no contexto da paisagem da Reserva e da porção central do Brasil. É constituída por dois estratos: um rasteiro, similar ao Campo Limpo Úmido e composto predominantemente por gramíneas (Paspalum, Panicum Arthropogon, Andropogon), ciperáceas (Rhynchospora, Fimbristylis, Lagenocarpus, Scleria), eriocauláceas (Paepalanthus, Syngonanthus), Umbelliferae (Eryngium), Xyridaceae (Xyris) e pteridófitas (Polypodium, Blechnum, Lycopodiella); e outro arbóreo, constituído basicamente pela palmeira chamada buriti ou buritizeiro (Mauritia flexuosa), sua planta típica, muitas vezes com mais de 15 metros de altura.
Em alguns locais, os buritis ocorrem acompanhados de agrupamentos de elementos lenhosos comuns na mata de galeria paludosa (Siparuna cujabana, Clusia criuva, Richeria grandis, Hedyosmum brasiliense, Trembleya parviflora, Miconia spp, Piper spp), indicando que a Vereda é parte de um processo sucessional que se inicia no campo limpo úmido e culmina com a formação de matas de galeria, pela coalescência de tais agrupamentos e estabelecimento de outras espécies de mata.

A ocorrência de buritizeiros isolados em matas de galeria paludosas, sem indivíduos jovens nas imediações, é considerada uma evidência da transformação da Vereda em floresta.
As veredas ocupam uma fração reduzida da superfície da Reserva, mas são muito importantes como abrigo e fonte de água e de alimento para a fauna.

 


Campo Limpo Úmido

O Campo Limpo Úmido, como o próprio nome indica, é uma vegetação campestre, constituída predominantemente por elementos herbáceos graminóides, que ocorre em áreas úmidas. 
Essa fitofisionomia, a exemplo da Vereda, ocorre de forma intercalada com os outros tipos de vegetação que se fazem presentes nas superfícies situadas nas áreas de influência dos cursos d'água.

O local onde o campo limpo úmido ocupa maior área na Reserva Ecológica do IBGE é no baixo curso do córrego Roncador. Os solos nesse trecho e nas demais partes onde ele ocorre são os mesmos da Vereda, ou seja, Gleissolos, Solos Orgânicos e Plintossolos.

O grau de umidade nas superfícies ocupadas por esse tipo de campo é controlado pelo relevo e pelo regime de chuvas. Geralmente, aquelas que se situam no fundo dos vales permanecem saturadas de água o ano inteiro, enquanto as que se posicionam nas partes mais elevadas só se mostram encharcadas no pico da estação chuvosa, devido à elevação do lençol freático.

A flórula do Campo Limpo Úmido, contrariando a simplicidade da aparência da vegetação, é diversificada, constando de cerca de 100 espécies de plantas vasculares pertencentes a mais de 20 famílias. Tais espécies podem ser divididas em dois grupos: um mais numeroso, composto por elementos tipicamente paludícolas presentes também na Vereda; e outro formado por elementos que geralmente se restringem às partes sazonalmente encharcadas, tais como Microlicia loricata, Ditassa virgata, Eringeron tweediei, Inulopsis camporum e Imperata brasiliensis.*

 


* Texto produzido por Benedito Alísio da Silva Pereira et al. Reserva Ecológica do IBGE, Brasília (DF): Composição e Diversidade da Flórula Vascular (IBGE, 2004).
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